terça-feira, 27 de março de 2012

A vida, antes da morte


No próximo mês de Abril, o Supremo Tribunal Federal deve concluir julgamento que permitirá ou não o aborto de anencéfalos no Brasil. Os argumentos a favor do infanticídio são a certeza da morte do nascituro, segundo a ciência, e para evitar o sofrimento das mães. É verdade: todos nós buscamos a felicidade, e sofrer é realmente algo que ninguém quer. Mas também sabemos que a vida é cheia de percalços e, muitas vezes, cheia de espinhos. Qualquer mulher ou homem que não estejam preparados para isso não podem ousar ser mãe ou pai.

Poderia argumentar aqui com o livro bíblico de Jó, mas não vou fazê-lo. Vão dizer por aí que é pieguice de católico ou de crente. Porém fica o registro para quem se interessar a compreender o sofrimento de alguém que perdeu tudo, menos a fé e a esperança em Deus e em si mesmo. Como o mundo caminha para excluir Deus e a religião para as questões ditas como puramente terrenas, argumento com a realidade.

Eu tenho uma prima deficiente. Ela tem mais de 50 anos e desde que nasceu é alguém, aparentemente, à margem de tudo o que acontece ao seu redor. Não anda, não fala, não manifesta absolutamente nada, a não ser, ocasionalmente, a dor. Não sei bem qual doença que a atingiu e, depois de tanto tempo de convivência, não ousei mais em perguntar. Apenas me coloco, ocasionalmente, como testemunha do que acontece nesta longa história de vida.

A minha tia pode ser considerada a “mulher sofredora” da história. Durante todos esses longos anos, se dedica quase que integralmente à filha, necessitada de todos os cuidados como se criança fosse. Mas quando a visito, não vejo tristeza em seu olhar. Ouço-a, sim, conversar com Helena, minha prima e, atualmente, a única companhia de minha generosa tia. Heleninha não responde, apenas balbucia sons indecifráveis. Para nós, já que minha tia parece compreender tudo.

Penso, reflito e não chego à conclusão de que há alguém infeliz nesta relação. Realmente não entendo que sincronia é esta e tenho certeza que quem defende o aborto de anencéfalos não deve compreender também. Deve haver, sim, algo infinitamente maior na alma humana que a razão realmente desconhece. Há verdadeiramente algo no coração das pessoas que as fazem movimentarem-se, a fim de dar sentido às suas vidas. Tenho certeza, sim, de que muita gente sabe exatamente o que é.

Antes de continuar quero dizer que compreendo piedosamente a dor de futuras mães que descobrem que têm um bebê anencéfalo ainda dentro do ventre. A certeza da iminente morte da criança depois de horas ou dias depois de nascer pode até servir como argumento para dar fim à vida do bebê. Mas também acredito que quem não for capaz de dar amor e carinho a uma criança, mesmo que por alguns minutos, jamais será capaz de dar afeto a alguém por 50 anos, como faz minha tia Antônia. Isso porque a ciência é precisa para determinar a anencefalia com grau de certeza impressionante. Mas não consegue prever muitas doenças que podem colocar qualquer um em situação vegetativa depois de nascer. E mais: convivemos com constantes e graves acidentes que mutilam e paralisam pessoas cotidianamente e, em muitos casos, para o resto da vida. O que fazer, então, com os fardos pesados que ficam para os familiares? Temos bons exemplos de famílias sofredoras que carregam nas costas, sem reclamar, já que colocam o amor, o afeto, a gratidão acima de todos os outros sentimentos mesquinhos.

Sim, queremos ser felizes e merecemos isso. Mas todos nós estamos sujeitos à dor e à tristeza. Penso na imensidão de mães que sofrem porque seus filhos caíram para a marginalidade ou se entregaram ao vício. São raras as mães que deixam de acreditar e vivem suas dores, sofrem, amam. Raras são as notícias das que matam a própria a cria a fim de aliviar o sofrimento.

Sim, merecemos ser felizes e queremos ser amados. No entanto, quando você pensar que o amanhã não vale a pena, ame. Quando você pensar que o que carrega no ventre, anencéfalo ou não, não vale à pena, ame também. Dedique poucos minutos para olhar quem acabou de vir ao mundo, mas não terá oportunidade de amar. Mas, não se esqueça de que as escolhas da vida nem sempre estão em nossas mãos. Lembre-se do sofrimento feliz de muitas mães que não teriam outra escolha a não ser a pela vida. E vivem anos por isso, sem decretar a morte de ninguém.

Um comentário:

  1. Parabéns Allan pelo excelente texto, e por passar para nós um pouco do amor que todas as pessoas necessitam enxergar

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