domingo, 26 de dezembro de 2010

Saudades do meu Kichute

Como Cronista Esportivo há muito tempo debato sobre como são tratados os novos talentos descobertos todos os dias no Brasil. Retirado de seus lares sob a expectativa no promissor mercado da bola, são levados para outros estados e países, longe da companhia dos pais, irmãos, amigos. De vez em quando ouço declarações de que um ou outro voltou porque não aguentou de saudades. Claro que o comentário vem de forma pejorativa em um mundo em que homem não chora ou não tem sentimentos. É um mundo em que meninos deixam de ser crianças para se tornar mais um produto no milionário mercado do futebol. Importante ressaltar que 95% dos talentos descobertos vão parar no famigerado mercado, ganhando miséria.

Há um velho pensamento que diz que não dá para avaliar se um momento adverso lhe trará coisas boas no futuro ou não. Assim me recordo do meu tempo de garoto. Tinha 11 anos e, como todo menino, era louco por futebol. O Flamengo, meu time do coração, acabara de ganhar o primeiro título nacional e o Gama, o time da cidade onde moro, também acabara de faturar seu primeiro título local. Isso começou a atrair dezenas de garotos para a escolinha do clube, inclusive eu.

Eu cursava a 5º série e, crente que seria um grande talento, comecei a faltar as aulas (fui reprovado, diga-se de passagem). O técnico da escolinha era Jaime dos Santos, um senhor com problemas de movimento em uma das pernas. Sob o seu comando eu e meu amigo Marquinhos (um moleque bom de bola pra caramba) éramos sempre escalados para o quarto time. Aos poucos fui entendendo que havia uns privilegiados, filhos de diretores, de pais abonados, que sempre conseguiam um melhor colocação nos times. Claro que tinham uns moleques bom de bola também.

Mas eis que um dia o Jaime saiu. Um trio de professores de educação física assumiu a base do clube. De cara fizeram uma peneira. Sabe o que aconteceu: eu e meu amigo Marquinhos evoluímos do quarto para o primeiro time em um só jogo (lembro que meti dois gols e ele um).

Devido a condições financeiras da minha viúva-mãe, não podia comprar material. Todos tinham que ter meiões brancos, short verde e... uma chuteira. Sabendo da minha dificuldade, um amigo me doou um meião velho, o outro um calção. Ambos estavam bem rasgados, mas minha mãe, boa costureira que era, fez uns remendos e com um pequeno sacrifício me deu um kichute.

Quem tem a minha idade lembra do que era. Mas vamos lá. Kichute era um tênis de lona e solado de borracha com cravos. Imitava uma chuteira e virou moda entre a molecada na época. Fiquei feliz com o presente e era titular no time mas eis que...

Era manhã de sábado e estava tudo marcado. Os meninos do Gama iam jogar com os garotos de um clube de Brasília, à beira do lago Paranoá. Fomos de ônibus alugado pelo clube, mas quando cheguei lá ficamos sabendo que o trio de professores havia sido dispensado. Quem dirigiria a gurizada era o velho Jaime dos Santos.

Garotos juntos e o "professor" decide manter a escalação que os professores haviam deixado. Foi um alívio momentâneo pra mim. Mas eis que o homem me olha de cima até em baixo: meiões remendados, short reasgado e .... um kichute. - Aqui você não joga assim! E me tirou.

Fui para a beira do lago, sozinho, com vergonha. Abri minha sacola com um pequeno lanche que minha mãe havia preparado. Comi, chorei. Depois deste dia nunca mais pisei numa escolinha de futebol. Voltei pra escola, recuperei o ano perdido. Minha mãe nunca soube o que aconteceu. Aliás pouca gente sabia até agora.

Daí tiro a minha grande lição, que repasso a todos neste final de ano. Em um momento adverso a gente não sabe distinguir o que pode mudar no seu futuro. Pode vir uma coisa boa, ou ruim. No meu caso, acho que foi bom. Tenho 40 anos, me graduei, pós-graduei, tenho trabalhos, família e não estou incluso nos 95% de jogadores frustrados que não conseguem nada com o futebol.

Por isso, antes de odiar alguém pelo momento, pense no futuro que esta pessoa pode te proporcionar.



domingo, 15 de agosto de 2010

Político: nem todo produto é igual

Qualquer dona de casa é capaz de afirmar, pelos anos de experiência, qual o melhor sabão em pó, qual a melhor esponja de aço. E não é só propaganda de marca: os produtos funcionam mesmo. O que faz o consumidor retornar à prateleira e comprar, e às vezes titubear muito ao arriscar trocar de marca é que os produtos acima cumprem realmente o que prometem: roupas mais brancas no primeiro caso; brilho radiante, no segundo. Paga-se até mais caro por isso, mas há a certeza de que não haverá arrependimento.

O político elege-se pelas promessas que faz, mas só sobrevivem aqueles que cumprem o que prometem. É regra, vale para todos! O que diferencia um aspirante a cargo público eletivo de outro é justamente a sua capacidade de prometer e de fazer cumprir: nem todo eleitor ou consumidor cai em balela. Mas quando vacila, não volta, ou melhor, não vota mais.

Todo político é um produto social. Assim como os bens de consumo são fabricados em um determinado local, por um grupo de máquina e/ou pessoas. É a partir dessa premissa básica que conhecemos o candidato. Não encare o termo produto como algo pejorativo. Pense nos benefícios que você tem diariamente com os bens que lotam sua prateleira, que alimentam sua família, garantem higiene à sua casa. Mas, antes de votar, lembre daquele produto que não deu certo. Você arriscou, era barato, muito em conta, mas ineficaz: perdeu dinheiro!

Um político é fabricado em uma igreja, por um grupo de empresários, pela militância de trabalhadores, na sala de uma escola, em um palco, em um palácio, em um casebre, no quartel, no bar, na família, na televisão, no rádio. Um político também pode ser construído por um marqueteiro e não ser de ninguém, apenas dele mesmo. É muito fácil saber de onde eles vêm, é só perguntar. Alguns até estampam orgulhosos suas origens.

Com raras exceções um produto político nasce para atender a demanda do grupo social de onde surgiu. Se as promessas dele estão condizentes com sua origem, provavelmente delas será cumpridor. Tem-se aí a expectativa de que falamos de alguém honesto. Uma ou outra promessa do produto político pode se afastar um pouco do seu eixo de origem, o resto é balela, conversa fiada de um produto que não vai realmente atender as necessidades do consumidor eleitor.

Poderia citar alguns exemplos, mas em tempo eleitoral vão dizer que estou jogando contra um ou outro. Então deixo para o leitor pensar, como consumidor, pois é, infelizmente, por muito mais inteligente do que o anterior.

E as expectativas do cidadão são muitas. As necessidades básicas de comida (melhor salário), conforto (moradia), saúde (saneamento, hospital, lazer) cultura. A ascensão social e o reconhecimento são necessidades que também precisam ser cultivados por meio da política. Pena que muita gente se foca apenas neles. O resto ( ou seja, nós) é que se exploda.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Senador denomina eleitores de “clientes”. Nada mais apropriado.

A mudança de alguns paradigmas é fundamental para o nascer pleno da democracia, apesar dos avanços no que concerne à participação popular. Até o primeiro terço do século passado, pouco mais de 6% da população tinha direito ao voto. Hoje, felizmente, é universal. Mas antes disso, tivemos que vencer a fase em que devíamos pegar apenas um pé da botina e o outro somente após o pleito, depois de garantida a eleição do coronel.

Em entrevista recente na rádio Comunidade FM do Gama, concedida à minha pessoa, o Senador candidato à reeleição Cristovam Buarque disse que os eleitores devem ser tratados como clientes. É, sem dúvida, um novo modelo de gerir o Estado, já que governos costumam ver os eleitores como algo importante somente na hora do voto.

O cidadão é o cliente, de início, porque é ele que provém o Estado de recursos. É do bolso do cliente-eleitor que sai o salário dos políticos, dos médicos, dos policiais, dos professores. O bom empresário, quando vê no indivíduo um cliente sabe que daquela fonte é que sai o sustento da sua empresa, dos seus funcionários, da sua família. Por isso, trata-se bem o cliente, para que ele volte e fale bem da sua empresa, indique a amigos.

Ter o cidadão como cliente implica atender as suas necessidades. Infelizmente os políticos tendem a ser tornar os conhecedores do bem e do mal depois de vencerem as eleições. Sonham com um projeto, colocam na pauta no dia seguinte. E onde fica o cidadão? Será que tal projeto é uma necessidade da sociedade, de um grupo importante, ou de apenas um nicho clientelista?

As empresas quando vão lançar um produto fazem uma pesquisa de mercado, a fim de saber qual será a recepção do público, se ele está disposto a um sacrifício financeiro para adquiri-lo. Seria bom se o futuro governo e as nossas respectivas Câmaras, que querem enxergar o cidadão como cliente, também consultassem o eleitor sobre as suas expectativas e seus desejos, já que as necessidades bons institutos de pesquisa podem apontar.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Sem remorsos...

Os brasilienses assistem, atentamente, a série de entrevistas concedidas pelo maníaco de Luziânia. O pedreiro Ademar Jesus matou seis jovens e não demonstra nenhuma dor, nenhum remorso com o que fez. Com muita tranquilidade, explica os detalhes, os porquês de seus atos.
Como de hábito, a imprensa ouve as autoridades policiais e políticas, já que os crimes entraram na esfera federal envolvendo, inclusive, membros da CPI da Pedofilia no Congresso. Ouvidos também os especialistas: psicólogos, psiquiatras e religiosos. Todos têm uma explicação para os distúrbios psicossociais de Ademar.
O homem, por ser animal, nasce instintivo. E morre assim também. Instinto, emoções são bem mais fortes que a razão. Nascemos emotivos, a razão é moldada pela sociedade, pela família, a fim de controlar nossos desejos mais profundos. Dizia a um amigo católico que a gente só erra porque o erro nas dá prazer. A transgressão fascina o homem, mas é a família, a religião e a sociedade que nos dizem não. Dúvida que os homens têm prazer em matar?
Dizem que a dureza da vida endurece o coração. O hábito também. Pergunte a um estudante de medicina qual foi a sensação de seu primeiro contato com um cadáver, ou com alguém jorrando sangue. Boa parte vai trazer um péssima recordação. Mas com o passar do tempo, sentimos a classe fria diante de várias enfermidades e até da morte. A razão se sobrepôs à emoção. O hábito de fazer, de ver o mal a cada dia, faz a pessoa mais petrificada diante dos infortúnios da vida.
No ano passado, assisti parte do julgamento de um homem que matou a ex-mulher. O depoimento do réu fazia qualquer um duvidar se ele realmente teria cometido tal crime, não fosse o flagrante. Um homem amável, meigo e sem remorsos.
Não sei realmente se isso tem a ver com uma anomalia cerebral como tentam justificar os especialistas. Os psicopatas são doentes, verdade. Não dá para contestar o aparato científico. Mas qual a diferença do psicopata, sob o ponto de vista social, daquele que já se acostumou a matar. Visite um presídio e ouça histórias de presos que mataram, estupraram, sequestraram. Não há remorso, sentimento de culpa. O discursos não vão diferir em nada ao do pedreiro Ademar.
Não existe neles mais emoção, apenas uma razão que eles moldaram a fim de justificar os seus próprios atos.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Candidatos e o mal de Narciso

Todo mundo conhece a história do Narciso, aquele que se apaixonou pela própria imagem refletida pela água. Daí surgiu o termo narcisista àquele que só olha para si mesmo.
Imagem é um termo muito utilizado em tempos de política. Uma imagem positiva, em tese, garante quantidade importante de votos aos candidatos. Mas cuidado para não cair na tentação de Narciso.
Levanto-me pela manhã, faço a barba, tomo banho, escovo os dentes, ponho minha melhor roupa. Olho no espelho e, como estou de bom astral, acho-me bonito. Na rua e no trabalho não faço tanto sucesso como acho que aconteceria, depois de tanto capricho e aquele perfume sofisticado que ganhei de uma amiga. Ninguém (interessante) me olhou, nenhum elogio. Resultado: frustração no final do dia. Afinal, tanto empenho, tanto capricho e nada.
Assim sentem-se muitos candidatos pós-eleição. Por quê? Porque confundiu imagem com identidade, mal de Narciso. Tem gente que, invadido pela arrogância e pelo encantamento com a própria imagem refletida no espelho, não perde tempo em ouvir os outros, de pesquisar qual é a visão (a imagem) que os outros têm dele. Não basta você gostar de você, são os outros que devem. E têm que gostar o suficiente e ver em você as qualidades necessárias para lhes depositarem o voto.
Portanto, antes de sair na rua, pergunte a alguém se o seu perfume não está mais forte do que deveria ou se a sua camisa não está um pouco démodé. Pergunte aos amigos (aqueles tão sinceros que têm coragem de dizer que você está errado) se são realmente boas as suas idéias e se você realmente é o que acha que é. E mais importante. Antes de achar que tem 10, 15 ou 20 mil votos, pesquise se realmente tem tantas pessoas dispostas a votarem em você. Isso para não perder tempo e dinheiro com delírios. E nunca mais confunda: imagem não é o que se vê no espelho, mas o que as pessoas vêem através da vidraça.