sábado, 9 de fevereiro de 2013

Antes tarde do que nunca?

Concordo com a teoria do arquiteto Gamense Ariomar Nogueira de que toda vez que governos promovem mutirões de limpeza assumem que o Estado foi incompetente em gerir esse serviço público. Seja no recolhimento dos resíduos, ou na fiscalização e multa dos moradores inconscientes. 


Digo isso para fazer um paralelo à ação de alguns estados brasileiros, incluindo o DF, de fecharem boates e bares depois do trágico acidente que vitimou mais de duas centenas de pessoas na Boate Kiss, em Santa Maria. Importante registrar que nenhuma lei, que eu saiba, foi criada depois da tragédia para justificar ação tão repentina do Estado.

Se as leis já existiam e agora as autoridades querem lhes fazer valer é porque antes eram omissas a elas, não fiscalizavam, faziam vistas grossas. É a prova da incompetência de quem deveria ter feito, mas que não fez.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Cristão também paga imposto


Ouço, não sem discordar, as manifestações contrárias a investimentos dos governos a eventos religiosos. Afinal, dizem os críticos, o Estado é laico e, portanto, não deveria dispensar recursos para tais atos. O problema é que, indistintamente, os fiéis das diversas denominações contribuem para o bolo financeiro da nação, para usufruir de todos os bens construídos pelo país, incluso aí a educação, a saúde e a cultura.

É verdade que muita gente não está nem aí para cantores evangélicos como Aline Barros, Thales Roberto (ex-integrante do Jota Quest), André e Ana Paula Valadão. E muita gente não se importa mesmo com músicos católicos como Walmir Alencar, Padre Marcelo, Adriana. Mas é preciso considerar também que muitos cristãos não querem nem ouvir falar de Caetano, Gil, Lenine, Michel Teló, Paula Fernandes, Roberto Carlos ou qualquer outro músico secular. Um não faz parte do universo do outro, da cultura do outro.

Se antigamente minha mãe cantarolava Diana ou Odair José durante suas atividades domésticas, hoje a mãe dos meus filhos, e até a minha filha, fazem o mesmo, só que embaladas pelos hits cristãos. Se antes as músicas cristãs estavam impressos apenas na harpa cristã ou no folheto da Missa, hoje é um produto cultural sofisticado, feito por profissionais. Por isso, também ficou caro e o acesso aos shows, quase sempre pagos, não é fácil a todos, assim como os dos outros artistas nacionais e internacionais. E como é função do Estado promover o acesso à cultura (à cultura que o cidadão quer, não aquela que se quer impor) é justo o apoio a eventos que facilitem a participação.

O governo começa a dar sinais para reconhecer as músicas religiosas como manifestação cultura. Em janeiro deste ano, a presidente Dilma sancionou lei neste sentido.  No DF o governador Agnelo seguiu o mesmo caminho e também sancionou lei regulamentando o repasse de recursos ou apoio para eventos religiosos. São sinais inevitáveis da importância desses artistas para a vida das pessoas.

A vendagem de CDS e DVDS também ajuda a entender em que universo se insere a música cristã no país. Entre as 20 produções mais vendidas estão cinco Padres, dois pastores, a banda evangélica Diante do Trono e a cantora gospel Damares. Os dados são da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD) divulgados em junho deste ano. Isso sem contar com as produções independentes cujas vendas são difíceis de apurar. O líder de vendagem é o padre Marcelo Rossi, bem à frente de Paula Fernandes, Luan Santana, Marisa Monte e Beyoncé.

Outra importante distinção a se fazer é em relação ao Estado laico, o que foi uma conquista necessária para o desenvolvimento político, social e religioso da nação. A diferença é que antes o Estado financiava e mantinha a Igreja em uma relação muitas vezes imoral e corrupta, para ambas as partes. Mas agora, ninguém está defendendo que os cofres públicos banquem estruturas ou salário de padres ou pastores. O que se defende é que se há parte de recursos destinada à promoção da cultura que ela seja distribuída de forma equitativa e justa.

É verdade. O Estado é laico, mas o Brasil tem a sua imensa maioria de pessoas cristãs. Que pagam seus impostos, indistintamente, portando, portadores de direitos, inclusive a ter acesso à sua cultura, a cultura cristã.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Problemas na ciclovia do Gama

Na sexta-feira da semana passada (17/8), estive na Administração Regional do Gama a fim de alertar para alguns problemas que verifiquei na construção da ciclovia do Gama. A obra vai ao encontro das expectativas dos usuários de bicicletas que se arriscam diariamente entre os carros que transitam na cidade. Faz parte, também, de um projeto global do GDF para integrar modelos tradicionais de transporte ao cotidiano do cidadão. Aliás, a cidade do Gama está prestes a se ver livre de um modelo de transporte arcaico e ineficiente, por um novo, executado pelo atual governador Agnelo Queiroz com uma imensa obra do Veículo Leve Sobre Pneus, já em execução, e a licitação de ônibus já em andamento.

Mas atenho-me novamente à ciclovia. A obra está sendo executada (ou licitada) pela Novacap, mas espero dos gestores da administração do Gama que interfiram em um processo que, ao meu ver, está trazendo alguns danos e legando um perigo futuro para os usuários da via. Primeiro não entendo o motivo de a ciclovia está sendo construída no canteiro central das vias com tantas áreas livres à margem das mesmas. O chefe de gabinete da RA II, Alan Valim, justificou com dois motivos: primeiro, as árvores serviriam de sombras para os ciclistas. Segundo: o novo modelo de acessibilidade prevê as áreas centrais com bicicletas e as laterais com calçadas. Tem lógica, mas sob meu ponto de vista os argumentos não se aplicam a uma cidade de 52 anos, com uma dinâmica já estabelecida. Como exemplo vou citar a avenida da Ambev. Os pedestres já caminham pela calçada na área central, usufruindo inclusive da sombra das árvores. Ali vai ser ciclovia? e os pedestres vão para onde? Quem conhece o Gama sabe que seria mais lógico preservar a calçada dos pedestres e fazer a ciclovia na área marginal, sentido Gama/Plano Piloto.

Na área central da cidade, outro problema. Já existe uma ciclovia, que necessitava apenas de revitalização. No entanto, outra está sendo feita, destruindo toda a avenida central. O argumento da arborização para os ciclistas aí também não cabe, já que são poucas as árvores que propiciam sombra. Pior: a ciclovia vai fluir para o balão da feira, o que vejo como um grande risco para os ciclistas no futuro.

Na avenida que corta a quadra 1 do setor norte e o Estádio Bezerrão o problema continua: muito espaço na lateral, sentido Fórum/Feira e mesmo assim a via central está sendo cortada, em um zigue-zague horrível até o início do Gama. Sei que alguns moradores já se manifestaram e muitos silenciam-se sem saber exatamente que obra é aquela. Curioso é que no Plano Piloto e no Sudoeste, a ciclovia não está sendo construída na via central, mas na lateral da vias. Não dá para entender o critério diferenciado para as cidades "satélites".

Por fim, registro as críticas aqui como apelo, já que muitas pessoas que me conhecem cobravam-me um posicionamento crítico, como outrora tive perante outros governos. Me desculpe o engenheiro que fez o projeto da ciclovia do Gama. Mas me parece ter sido alguém que abriu o mapa da cidade apenas, sem nunca ter posto os pés aqui. Haja visto a previsão de a ciclovia cortar todo o comércio do Gaminha, também pelo centro da via. Como? Também estou curioso para saber.

Solicito ao administrador do Gama, Márcio Palhares, e ao presidente da CLDF e ex-morador do Gama, deputado Patrício, que façam as intermediações necessárias. Se considerarem pertinente.

terça-feira, 27 de março de 2012

A vida, antes da morte


No próximo mês de Abril, o Supremo Tribunal Federal deve concluir julgamento que permitirá ou não o aborto de anencéfalos no Brasil. Os argumentos a favor do infanticídio são a certeza da morte do nascituro, segundo a ciência, e para evitar o sofrimento das mães. É verdade: todos nós buscamos a felicidade, e sofrer é realmente algo que ninguém quer. Mas também sabemos que a vida é cheia de percalços e, muitas vezes, cheia de espinhos. Qualquer mulher ou homem que não estejam preparados para isso não podem ousar ser mãe ou pai.

Poderia argumentar aqui com o livro bíblico de Jó, mas não vou fazê-lo. Vão dizer por aí que é pieguice de católico ou de crente. Porém fica o registro para quem se interessar a compreender o sofrimento de alguém que perdeu tudo, menos a fé e a esperança em Deus e em si mesmo. Como o mundo caminha para excluir Deus e a religião para as questões ditas como puramente terrenas, argumento com a realidade.

Eu tenho uma prima deficiente. Ela tem mais de 50 anos e desde que nasceu é alguém, aparentemente, à margem de tudo o que acontece ao seu redor. Não anda, não fala, não manifesta absolutamente nada, a não ser, ocasionalmente, a dor. Não sei bem qual doença que a atingiu e, depois de tanto tempo de convivência, não ousei mais em perguntar. Apenas me coloco, ocasionalmente, como testemunha do que acontece nesta longa história de vida.

A minha tia pode ser considerada a “mulher sofredora” da história. Durante todos esses longos anos, se dedica quase que integralmente à filha, necessitada de todos os cuidados como se criança fosse. Mas quando a visito, não vejo tristeza em seu olhar. Ouço-a, sim, conversar com Helena, minha prima e, atualmente, a única companhia de minha generosa tia. Heleninha não responde, apenas balbucia sons indecifráveis. Para nós, já que minha tia parece compreender tudo.

Penso, reflito e não chego à conclusão de que há alguém infeliz nesta relação. Realmente não entendo que sincronia é esta e tenho certeza que quem defende o aborto de anencéfalos não deve compreender também. Deve haver, sim, algo infinitamente maior na alma humana que a razão realmente desconhece. Há verdadeiramente algo no coração das pessoas que as fazem movimentarem-se, a fim de dar sentido às suas vidas. Tenho certeza, sim, de que muita gente sabe exatamente o que é.

Antes de continuar quero dizer que compreendo piedosamente a dor de futuras mães que descobrem que têm um bebê anencéfalo ainda dentro do ventre. A certeza da iminente morte da criança depois de horas ou dias depois de nascer pode até servir como argumento para dar fim à vida do bebê. Mas também acredito que quem não for capaz de dar amor e carinho a uma criança, mesmo que por alguns minutos, jamais será capaz de dar afeto a alguém por 50 anos, como faz minha tia Antônia. Isso porque a ciência é precisa para determinar a anencefalia com grau de certeza impressionante. Mas não consegue prever muitas doenças que podem colocar qualquer um em situação vegetativa depois de nascer. E mais: convivemos com constantes e graves acidentes que mutilam e paralisam pessoas cotidianamente e, em muitos casos, para o resto da vida. O que fazer, então, com os fardos pesados que ficam para os familiares? Temos bons exemplos de famílias sofredoras que carregam nas costas, sem reclamar, já que colocam o amor, o afeto, a gratidão acima de todos os outros sentimentos mesquinhos.

Sim, queremos ser felizes e merecemos isso. Mas todos nós estamos sujeitos à dor e à tristeza. Penso na imensidão de mães que sofrem porque seus filhos caíram para a marginalidade ou se entregaram ao vício. São raras as mães que deixam de acreditar e vivem suas dores, sofrem, amam. Raras são as notícias das que matam a própria a cria a fim de aliviar o sofrimento.

Sim, merecemos ser felizes e queremos ser amados. No entanto, quando você pensar que o amanhã não vale a pena, ame. Quando você pensar que o que carrega no ventre, anencéfalo ou não, não vale à pena, ame também. Dedique poucos minutos para olhar quem acabou de vir ao mundo, mas não terá oportunidade de amar. Mas, não se esqueça de que as escolhas da vida nem sempre estão em nossas mãos. Lembre-se do sofrimento feliz de muitas mães que não teriam outra escolha a não ser a pela vida. E vivem anos por isso, sem decretar a morte de ninguém.

quarta-feira, 21 de março de 2012

O Evangelho e a igualdade


Hoje, dia 21 de Março, é dia de luta pela igualdade racial. Não deixa de ser um momento oportuno para mais uma pequena revisão histórica, diante de muitas que já foram feitas, para alertar sobre o quanto pode ser danoso o mau uso da Palavra de Deus na sociedade. Por muitos anos, muitos irmãos foram escravizados por homens que se diziam superiores colocando o Evangelho debaixo do braço, inclusive.

Importante que neste período de quaresma reflitamos também sobre como utilizamos a Palavra, às vezes para nos justificar ou para referendar atitudes socialmente injustas. O Deus Cristão é de inclusão. Em sua forma humana, Jesus, veio ao mundo não mais para ser um Deus de um só povo: os eleitos, os escolhidos, passaram a ser, desde então, todos aqueles que abraçam a fé.

Nossa Senhora Aparecida, Mãe Negra do Povo Brasileiro, interceda junto ao Pai para que cada vez mais sejamos irmãos, independente da pele que nos faz apenas um pouco diferentes. Amém!