Ouço, não sem discordar, as manifestações contrárias a investimentos
dos governos a eventos religiosos. Afinal, dizem os críticos, o Estado é laico
e, portanto, não deveria dispensar recursos para tais atos. O problema é que,
indistintamente, os fiéis das diversas denominações contribuem para o bolo
financeiro da nação, para usufruir de todos os bens construídos pelo país,
incluso aí a educação, a saúde e a cultura.
É verdade que muita gente não está nem aí para cantores
evangélicos como Aline Barros, Thales Roberto (ex-integrante do Jota Quest),
André e Ana Paula Valadão. E muita gente não se importa mesmo com músicos
católicos como Walmir Alencar, Padre Marcelo, Adriana. Mas é preciso considerar
também que muitos cristãos não querem nem ouvir falar de Caetano, Gil, Lenine,
Michel Teló, Paula Fernandes, Roberto Carlos ou qualquer outro músico secular. Um
não faz parte do universo do outro, da cultura do outro.
Se antigamente minha mãe cantarolava Diana ou Odair José
durante suas atividades domésticas, hoje a mãe dos meus filhos, e até a minha
filha, fazem o mesmo, só que embaladas pelos hits cristãos. Se antes as músicas
cristãs estavam impressos apenas na harpa cristã ou no folheto da Missa, hoje é
um produto cultural sofisticado, feito por profissionais. Por isso, também
ficou caro e o acesso aos shows, quase sempre pagos, não é fácil a todos, assim
como os dos outros artistas nacionais e internacionais. E como é função do
Estado promover o acesso à cultura (à cultura que o cidadão quer, não aquela
que se quer impor) é justo o apoio a eventos que facilitem a participação.
O governo começa a dar sinais para reconhecer as músicas
religiosas como manifestação cultura. Em janeiro deste ano, a presidente Dilma
sancionou lei neste sentido. No DF o
governador Agnelo seguiu o mesmo caminho e também sancionou lei regulamentando
o repasse de recursos ou apoio para eventos religiosos. São sinais inevitáveis
da importância desses artistas para a vida das pessoas.
A vendagem de CDS e DVDS também ajuda a entender em que
universo se insere a música cristã no país. Entre as 20 produções mais vendidas
estão cinco Padres, dois pastores, a banda evangélica Diante do Trono e a cantora
gospel Damares. Os dados são da Associação Brasileira dos Produtores de Discos
(ABPD) divulgados em junho deste ano. Isso sem contar com as produções
independentes cujas vendas são difíceis de apurar. O líder de vendagem é o
padre Marcelo Rossi, bem à frente de Paula Fernandes, Luan Santana, Marisa Monte
e Beyoncé.
Outra importante distinção a se fazer é em relação ao Estado
laico, o que foi uma conquista necessária para o desenvolvimento político,
social e religioso da nação. A diferença é que antes o Estado financiava e
mantinha a Igreja em uma relação muitas vezes imoral e corrupta, para ambas as
partes. Mas agora, ninguém está defendendo que os cofres públicos banquem
estruturas ou salário de padres ou pastores. O que se defende é que se há parte
de recursos destinada à promoção da cultura que ela seja distribuída de forma
equitativa e justa.
É verdade. O Estado é laico, mas o Brasil tem a sua imensa
maioria de pessoas cristãs. Que pagam seus impostos, indistintamente, portando,
portadores de direitos, inclusive a ter acesso à sua cultura, a cultura cristã.
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