Há um velho pensamento que diz que não dá para avaliar se um momento adverso lhe trará coisas boas no futuro ou não. Assim me recordo do meu tempo de garoto. Tinha 11 anos e, como todo menino, era louco por futebol. O Flamengo, meu time do coração, acabara de ganhar o primeiro título nacional e o Gama, o time da cidade onde moro, também acabara de faturar seu primeiro título local. Isso começou a atrair dezenas de garotos para a escolinha do clube, inclusive eu.
Eu cursava a 5º série e, crente que seria um grande talento, comecei a faltar as aulas (fui reprovado, diga-se de passagem). O técnico da escolinha era Jaime dos Santos, um senhor com problemas de movimento em uma das pernas. Sob o seu comando eu e meu amigo Marquinhos (um moleque bom de bola pra caramba) éramos sempre escalados para o quarto time. Aos poucos fui entendendo que havia uns privilegiados, filhos de diretores, de pais abonados, que sempre conseguiam um melhor colocação nos times. Claro que tinham uns moleques bom de bola também.
Mas eis que um dia o Jaime saiu. Um trio de professores de educação física assumiu a base do clube. De cara fizeram uma peneira. Sabe o que aconteceu: eu e meu amigo Marquinhos evoluímos do quarto para o primeiro time em um só jogo (lembro que meti dois gols e ele um).
Devido a condições financeiras da minha viúva-mãe, não podia comprar material. Todos tinham que ter meiões brancos, short verde e... uma chuteira. Sabendo da minha dificuldade, um amigo me doou um meião velho, o outro um calção. Ambos estavam bem rasgados, mas minha mãe, boa costureira que era, fez uns remendos e com um pequeno sacrifício me deu um kichute.
Quem tem a minha idade lembra do que era. Mas vamos lá. Kichute era um tênis de lona e solado de borracha com cravos. Imitava uma chuteira e virou moda entre a molecada na época. Fiquei feliz com o presente e era titular no time mas eis que...
Era manhã de sábado e estava tudo marcado. Os meninos do Gama iam jogar com os garotos de um clube de Brasília, à beira do lago Paranoá. Fomos de ônibus alugado pelo clube, mas quando cheguei lá ficamos sabendo que o trio de professores havia sido dispensado. Quem dirigiria a gurizada era o velho Jaime dos Santos.
Garotos juntos e o "professor" decide manter a escalação que os professores haviam deixado. Foi um alívio momentâneo pra mim. Mas eis que o homem me olha de cima até em baixo: meiões remendados, short reasgado e .... um kichute. - Aqui você não joga assim! E me tirou.
Fui para a beira do lago, sozinho, com vergonha. Abri minha sacola com um pequeno lanche que minha mãe havia preparado. Comi, chorei. Depois deste dia nunca mais pisei numa escolinha de futebol. Voltei pra escola, recuperei o ano perdido. Minha mãe nunca soube o que aconteceu. Aliás pouca gente sabia até agora.
Daí tiro a minha grande lição, que repasso a todos neste final de ano. Em um momento adverso a gente não sabe distinguir o que pode mudar no seu futuro. Pode vir uma coisa boa, ou ruim. No meu caso, acho que foi bom. Tenho 40 anos, me graduei, pós-graduei, tenho trabalhos, família e não estou incluso nos 95% de jogadores frustrados que não conseguem nada com o futebol.
Por isso, antes de odiar alguém pelo momento, pense no futuro que esta pessoa pode te proporcionar.