Há pelo menos três semanas, o programa Fantástico, da Rede Globo, vem exibindo uma série de reportagens sobre brasileiros que não têm o nome do pai no registro de nascimento. Mais que isso, filhos que passam quase toda a vida sem ao menos conhecê-los. As matérias, conduzidas pelo repórter Marcelo Canellas, trazem à luz as consequências das atitudes de homens que não abandonaram o jeito primata de procriar sem assumir, de fazer sem amar.
Não há dúvidas, e a série da reportagens do Fantástico mostra isso: de que a parte mais frágil da relação é a mulher e os filhos que ficam à mercê do mundo. Também lendo no Jornal de Brasilia deste domingo (18/3) outra matéria fala da guarda compartilhada como maneira de amenizar as imensas dores causadas aos filhos pelas separações de casais. Possivelmente, uma maneira de evitar gastos com psicólogos e terapeutas. Mas o que mais me comove é que cada matéria que vejo na TV ou leio nos jornais não deixa para mim dúvida de que a parte mais frágil desta relação, a mulher, estava propensa a amar. A tristeza e a mágua de alguém que a deixou em migalhas são provas disso. Pior é a agressão da disconfiaça demonstrada com a frase: - não tenho certeza de que este filho é meu. Somente um exame de DNA para provar a verdade. Lamentável!
A criação de famílias é, segundo estudiosos, uma convenção humana. Passou a existir a partir da necessidade de proteção e, posteriormente, por imposição religiosa. A existência de amor, afeto, carinho, passam quase sempre despercebidos dos estudos antropológicos modernos sobre a evolução da espécie. O macho era na pré-história, como boa parte ainda é hoje, nômade: fazia e sumia. Às mulheres ficava a responsabilidade de amamentar, criar, ver crescer. Enquanto isso o homem pulava de galho em galho atras de uma nova presa. Quer dizer, nada muito diferente do que vemos hoje. E ainda há quem diga por aí que somos racionalmente evoluídos.
De uns tempos para cá, a organização familiar tradicional, que há pouco tempo era o sustento da sociedade, passou a ser alvo de ataques que a qualificam de cafona e antiquada. Aliás, instituição falida como é amplamente propagado. O problema é que, diferente do que acontece nas classes mais abastadas da sociedade, que resolve tudo com pensões e distribuição de responsabilidades, a mulher mais pobre tem de se virar para cuidar dos filhos abandonados, sem as devidas pensões alimentícias, já que os companheiros desaparecem. Os filhos ficam na expectativa do reconhecimento de paternidade em situações, como mostradas na série, constrangedoras, humilhantes e, por vezes, patéticas.
A nossa sociedade, livre, democrática, que distribui camisinhas no carnaval para evitar Aids e gravidez precoce ou de pais irresponsáveis, prega o liberalismo sexual, o prazer pelo prazer. Mas não quer discutir a forma como construímos nossas relações com profundidade, já que tudo o que está acontecendo mostra uma “evolução” das relações afetivas. O resultado não está somente nas estatísticas dos filhos sem pai nos registros de nascimento. Mas de uma prole triste, boa parte delas se entregando ao que há de pior no mundo: as drogas e a sua forma mais branda: o álcool. Um estrago social, por vezes irreversível. E os governos continuam a combater o vício, sem ao menos falar na raiz de todos os males: a falta de famílias estruturadass com mães e pais responsáveis, que amam e sabem amar.
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